quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vão querer ser você.

Bonitos, inteligentes, competentes e saudáveis. Votem em todas as eleições, serão recompen$ados. Aproveitem o preço da academia, não vão querer ficar fora da medida para o verão. Sabe aquela peça que estréia amanhã? Esquecam ela, tem final do BBB. Não se preocupem com esses projetos de leis, estatutos, direitos e qualquer outra bobagem, afinal, os políticos recebem pra resolver todos esses problemas para vocês.
Engraçado essas pessoas que vivem gastando energia com ONG’s, sequer ganham dinheiro para tal. Imagine, desperdiçar tempo que poderiam estar dormindo ou engordando suas contas bancárias. Outras que ficam preocupadas com a água do planeta. Porra! Já viram quanta água existe por aí? Nem em um bilhão de anos acaba (e, se acabar, não estarei aqui mesmo). E tem essas que vivem pra proteger os bichinhos e as plantinhas da Amazônia. Sabe o que faltam a elas todas? Uns problemas pra resolver, trânsito pra enfrentar, sei lá.
Não tenho tempo para esse tipo de coisa. Afinal, tenho meu emprego (amanhã vou arrumar um atestado pra faltar), minha família (hum, aquela prima me deve desde o mês passado), meu cachorro (será que eu deixei ração?). Preocupações demais.
Nasçam, vão à escola, aprendam a colocar a culpa no coleguinha, cresçam, roubem dinheiro da carteira da mãe pra ter dinheiro pra balada de sexta, cresçam, ocupem cargos importantes, roubem com seus cargos importantes, juntem o máximo de bens possíveis pra... pra... pra deixar de herança! Morram. O mundo é dos espertos.

E, claro, não pensem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Nem sempre.

Esperar o tempo agir não quer dizer perder tempo.
Fazer muita coisa não garante que você está fazendo algo de importante mesmo.
Tocar muitos instrumentos não garante que vá se tornar o melhor em algum deles.
Beleza você pode ter, apesar de nem sempre vir acompanhada de alma ou inteligência.
Pode ter o melhor carro sem saber dirigir, o livro mais complexo sem saber ler ou a música mais bonita e ser surdo.
Amigos podem ser muitos em sua vida, mas comemore se um for de verdade.
Ter a biblioteca mais completa que já existiu e não se tornar a pessoa mais culta que já existiu.
Escolher a mais bonita e não ser a mais legal? Pode acontecer.
Sua vocacão pode ganhar mal.
Pode ganhar bem, mas não  ter vocacão.
Arcar com o céu e o inferno das escolhas é barra pesada. Trágico será se chegar um dia em que pensarmos em nossas escolhas de anos e a primeira coisa que vier à mente for arrependimento.
(E sim, nos arrependemos o tempo todo. Esse papo de não se arrepender de nada é fácil quando tudo já passou. Mesmo se forem pequenos, ainda sim são angustiantes).

Ou não.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Rock. Precisa dizer mais?

Nunca fui o mais bonito, o mais inteligente, o que se destacava nas aulas de educação física ou aquele que tinha dezenas de amigos. Também não era aquele que conversava com todo mundo da turma, sempre fui mais introvertido. Não me identificava com as músicas que tocava na maioria dos lugares que as pessoas iam. Minhas roupas jamais foram aquelas que todo mundo estava usando, é conforto e pronto.

Acho que por isso tudo o rock cruzou o meu caminho. Ele não vende a imagem de que é preciso ser popular, bonito e estar na moda pra viver, pelo contrário, cada um deve ser aquilo que quer ser de verdade. Ele se tornou uma espécie de válvula de escape pra toda essa mediocridade que a gente vê por aí. Por mais que a realidade estivesse ao contrário do que gostaríamos, ele sempre estava ali pra me fazer esquecer (ou pensar!). Me fez criar amigos que nunca imaginei (ou vi), abriu horizontes. O Rock vem mudando a cara do mundo, da juventude e da cultura, deixando marcas onde quer que passe.

Ouvir rock é dar valor ao seu ouvido, ao seu cérebro, à sua capacidade de ver na música algo a mais. É usar as letras para apurar seu senso crítico e saber filtrar essa quantidade de bobagens que chegam pela televisão, rádio ou internet. É se contagiar com o espírito de mudança, de saber que qualquer objetivo exige que você corra atrás dele. Não é ouvir só rock, nem é encher o saco de quem ouve outra coisa, é cumprir uma exigência própria de só gostar do que realmente desperta o seu interesse.

A história do rock começa com um grito: o grito do negro, que veio para a América como escravo e influenciou a sociedade norte-americana com a sua musicalidade. Os principais atingidos pela revolução sonora do rock’n’roll foram os jovens, inicialmente nos Estados Unidos e depois no mundo todo. Nos primeiros anos da década de 1950, estes jovens se encontravam em meio a disputas entre o capitalismo e o comunismo (a guerra da Coréia em 1950) e a uma valorização do consumismo, da modernização, fruto do progresso científico gerado no pós-guerra. O rock’n’roll, afinal, surgiu na América como um movimento da contracultura, visto que suas primeiras manifestações eram contrárias aos valores até então veiculados.

Impossível ouvir o coro à capela de Love Of My Life no Rock in Rio (aqui) e não se emocionar, ou não pirar com a introdução de Sweet Child O’ Mine (aqui) no talo, ou ainda não tocar uma guitarra imaginária em Smoke On The Water (aqui) e cantar Exagerado (aqui) com Cazuza a plenos pulmões. Gosto de ouvir uma canção e me sentir provocado por ela, instigado, animado, emocionado. E não tem estilo que melhor faz isso. Citar todas as bandas incríveis que embalam a vida seria fazer uma lista enorme... São músicas que marcam toda uma vida, a história de gerações. Basta lembrar que os melhores momentos da minha vida foram ao som de rock n’ roll. Um riff incrível é capaz de despertar coisas que a gente nem sabia que existiam. Uma letra pode mudar a forma como você vê o mundo pelo resto da sua vida. São referências, ícones, estilo de vida, círculo de amizades. Vai além de conceitos formais e banais.

"It's not a problem you can stop, It's rock n' roll" 
     (Garden Of Eden - Guns N' Roses)

Dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock.
Dia de quem quer mudar o mundo, mesmo que esse mundo não veja essa capacidade neles.



sábado, 18 de junho de 2011

Carta

É, já faz um ano que não escrevo nada. Muita coisa mudou, mas ainda está tudo igual. Mudaram as pessoas que tenho que ver todo dia, a atendente daquele bar que a gente ia nas sextas e até o aquele meu jeito que você achava engraçado de amarrar o cadarço do all-star. O que resistiu a esse tempo? A mania de sempre sair de casa com um bloquinho e escrever as bobagens que penso na rua. Só que um pouco da graça desse hábito foi embora junto com você. Parte importante do ritual era chegar, te mostrar a “produção” do dia e agüentar seus deboches – dos quais sinto falta. Qualquer dia te mando as coisas que escrevi. Na verdade, é provável que não mande. Não saberia lidar com o fato de não conseguir ver as suas reações ao lê-las.
É estranho encontrar com seus amigos e não ter notícias suas pra dar. Não saber onde vive, com quem anda ou que tipo de música anda ouvindo. A propósito, distribui entre eles aquela coleção conjunta de vinis que tínhamos. Cada um mais lindo que o outro, cheios de histórias. Como aquele do Nirvana que você colocava pra ir animando a galera que ia lá em casa antes de parar em um boteco qualquer, ou aquele do Chico Buarque que já deveria estar cansado de embalar as tardes preguiçosas de domingo. Dei todos. Entenda, era difícil ter que olhar e lembrar de tudo que não vai acontecer de novo.
Deve estar estranho eu ter digitado isso, logo eu, o “ultrapassado averso a qualquer tipo de avanço tecnológico”. Pois é, aprendi que nas horas de solidão esses avanços servem pra te enganar e te iludir a respeito dessa condição. Me fazem não me sentir só, apesar de estar.
É isso, agora vou ter que sair e fingir que nada está acontecendo, que eu não estou com saudade e que talvez você volte. Ou me responda pela primeira vez.
Estou bem, até mais.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ao som de um velho rock.

Quando a vontade de conhecer os cantos mais escuros, as pessoas mais hedonistas, os sabores mais exóticos crescerem na mesma proporção que a lua.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando os sentidos já estiverem sendo enganados pelo efeito de um vinho barato e o trapézio já não for mais capaz de te dar equilíbrio.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando o que se sente e pensa não conseguir acompanhar o que se vive, por se sentir ou pensar muito alto ou por viver muito baixo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Na noite mais fria, no dia mais quente, na madrugada mais perturbadora.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Se o mais velho amigo te abandonar ou o amor platônico se declarar.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando a agulha da vitrola quebrar ou bateria do iPod acabar. Quando for preciso cantar desafinado para passar o tempo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando a fome de novidade ficar tão forte a ponto de te fazer esquecer da rotina e fazer coisas que nunca imaginou fazer.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Se, algum dia, quiser alguém para falar importantes coisas inúteis, para ouvir aquele novo disco do passado ou debochar dos problemas do mundo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock

Na véspera de uma viagem, num dia de liberdade, na pior sarjeta da cidade. No céu diário ou no caos do noticiário.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

No dia que a solidariedade for crime, a tolerância não existir e isso incomodar você.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando estiver alegre, triste, cansada, no melhor estilo sex, drugs and rock n' roll, caseira, boêmia. Se o riso ou a lágrima escorrerem fácil.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Gostava de olhar o mundo

Contava os dias para a liberdade. Mesmo sem saber se já estaria livre, mesmo sem sequer saber o que seria ela. Toda noite, naquele momento em que não se está nem dormindo nem acordado, pensava se as coisas não iam bem realmente. Talvez fosse frágil demais, talvez esperasse demais de tudo.
Essa contagem não era baseada no tempo convencional - aliás, nada na vida dele era convencional - de dias e horas. Era muito mais marcada pelo que sentia e pensava, de modo que um ano poderia caber em um dia ou uma hora se estender por uma longa semana. Como lidar com um presente que não acompanhou a prosperidade dos tempos de outrora?
Gostava de olhar o mundo. A rotina de sentar no café da esquina, pedir um expresso e ficar observando aquelas pessoas já havia virado uma espécie de ritual. Todos pareciam se afogar em problemas, ligações, na pressa. Ali pensava em todas as angústias que as coisas por fazer o faziam esquecer. Tinha que pensar nelas, mastigá-las, saboreá-las. Podia parecer masoquista, mas de outra forma não conseguiria se libertar. Era preciso para poder cuspí-las depois. Fingir que as amarguras não existiam era permitir que elas fossem se acumulando, aos poucos. Queria se livrar das coisas que não lhe fazia bem, e não seria fingindo que não existiam que conseguiria.
Foi nesse café que conheceu quem viria a ser o seu maior alicerce. Uma mulher que estava sempre ali, sempre só, sempre com um livro velho proveniente de algum sebo empoeirado. Mantinham uma relação invisível, contato visual. Sabe quando você olha pra alguém e percebe que ela também está te olhando? Pois é. Foi assim por semanas.
Num dia mais frio que o habitual, em que o café se mostrava um lugar bem mais atraente, ele sentou do lado dela. Simplesmente, sem nem entender o motivo. Toda sua vida foi movido por uma timidez que não permitia ações muito espontâneas e rápidas. Tudo sempre foi muito pensado antes de fazer, até aquele dia. Acho que alguma coisa o fez acreditar que teriam mais coisas em comum do que com o resto da humanidade. Foi estranho, até as reservas que ambos haviam criado no passado caírem. A partir dali foram mais inúmeros cafés, dezenas de discos ouvidos, alguns filmes, alguns livros trocados...
Agora os dois teriam com quem contar. Não sabiam ainda, mas teriam alguém para falar besteira num sábado entediado, desabafar quando o mundo estivesse um porre ou brigar (com a certeza que no outro dia tudo já estaria bem).
Sim, eles se amavam. E sim, eram "só" amigos. Que acho, inclusive, que é o maior laço que podemos criar com outra pessoa, livre das obrigações chatas dos outros tipos de relacionamento. Eram amigos, os maiores e melhores que o mundo já viu e verá.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quando não existe o errado

Você não pode dizer qual o melhor jeito de passar esse tempo entre o nascimento e a morte, ninguém pode. A única coisa que você pode fazer é escolher um caminho, um modo de vida, uma ideologia, e seguir convicto. O tempo responde as incertezas, as inseguranças. Tenho uma leve suspeita sobre o que ele vai responder, quando os anos já tiverem em número suficiente. Ele vai sussurrar no seu ouvido "não existe estrada errada, existe incredulidade na que escolheu". E isso o calor de estar no olho do furacão não deixa a gente enxergar.
As noites meio bêbadas viradas com uns poucos e bons, os livros lidos várias vezes e reinterpretados tantas outras e as músicas que se tornam hinos de momentos que passamos não permitem que ninguém questione a validade dos equívocos cometidos. Saber lidar com o inferno e céu de todos os dias não faz com que eles sejam só céu, mas evita que sejam só inferno.
Ela vive o agora. Leva o hedonismo às últimas consequências e não faz planos que envolvam mais tempo que uma semana. Vai em todos os lugares e não tem preconceitos em conhecer todo tipo de gente. Come demais, bebe excessivamente. Não dorme nada ou dorme muito. Vai tanto em show internacionais como fica batendo papo na esquina.
Ele colocou o futuro dentro de um cofre e protege ele arduamente. Fica em casa quando sabe que tem prova no outro dia. Acorda cedo e caminha pra se manter saudável. Reserva seu dinheiro para imprevistos futuros. Não lembra do passado, vive o presente pra ter algum futuro. Pergunta o que é Carpe Diem.
Quem está certo? Ou melhor, tem alguém errado? Acho que não.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Rascunho

Mundo de super heróis. Todos tentam ser mais bonitos, descolados, inteligentes, deixando a estupidez escorrer dos olhos. Desculpa, mas eu olho pras pessoas e não consigo enxergar nada além de maquiagem. É como se bastasse se render a ditadura do “cool”. Deixar-se ser aquilo que de verdade acredita é honrar a capacidade de pensar e formar suas próprias concepções de mundo. Todo mundo gosta de quem tem suas certezas, até o ponto em que elas divergem das suas. Mas isso é importante, confrontar ideias diferentes deixa mais bonita a relação com os outros, mais instigante.
Falta parar de ceder às conveniências, parar de seguir o senso-comum. Com esse poder de pensar e ter uma visão própria, não entendo o motivo de se deixar levar. Não vou ceder a essa balela midiática que luta para padronizar as ideias e tornar a vida uma simples repetição de conceitos e atitudes atrasadas.
Não acreditem em tudo que vêem por aí, cegamente. Nada é eternamente verdade, exceto se for a SUA verdade. Essa vale à pena, e é por ela que eu luto.
Vão poder dizer tudo. Que fomos loucos, que não gostaram do nosso jeito, das nossas escolhas. Uma coisa não vão poder dizer: que não tivemos coragem de ter o NOSSO jeito, as NOSSAS escolhas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ele é o paradoxo

Não ter a certeza de como sua vida estará daqui a algum tempo é o que o assombra. Tenta pulverizar esse peso em outras preocupações. Menores, mas que desfocam o mal maior. Aquela prova que precisa tirar nota alta serve para esse propósito, ou aquela garota que anda o ignorando. Qualquer coisa que ocupe o espaço que a dúvida habita.
Estuda pouco, ou nem estuda, mesmo sabendo que grande parte dos seus planos dependiam disso. Não procura emprego, mesmo sabendo que o dinheiro seria útil quande tivesse que trilhar seu caminho. É como se ele procurasse motivos para fomentar seus medos. Joga lenha na fogueira, apesar de querer mesmo é apagar o fogo.
Sempre fora cercado por essas contradições, desde sempre. Na infância, suas relações com seus amigos eram de amor e ódio, amizade e repúdio. Era uma maneira de camuflar o que sentia. Instintivamente, escondia seu âmago com atitudes contrárias. Tinha medo.
Tem pessoas que deixam um legado para o mundo. Não digo grandes invenções ou descobertas, digo detalhes que os seus mais próximos levarão consigo. Lembranças, memórias."Eu? acho que só restará de mim uma dúvida. Que perdurará após a minha morte. Vivi buscando aquilo que não queria ou procurei aquilo que queria mas não tinha coragem de admitir?"
Mas ainda está vivo. E segue. Segue com aquele espírito ideológico que se recusa a parar de tentar entender esse vácuo entre o que sente e o que faz. Apesar de tudo, sente orgulho de ser como é. Tanta gente que ostenta hipocrisia com uma ferocidade tamanha. Não é assim, então se reserva o direito de se gostar, um pouquinho que seja. Não faz mal a ninguém, embora faça a si mesmo algumas vezes.
Busca, corre, para, pensa, chora. Busca de novo. Chora de novo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Estado imaginário

Sentiu-se estranhamente feliz, sem saber muito bem o motivo. Precisava saber, só assim conseguiria repetir esse momento. Na verdade, nem acreditava muito nessa história de felicidade. “É um estado imaginário” costuma repetir, ao som do Barão Vermelho. Achava que conseguiria alcançá-lo independente do que estivesse à sua volta, preferia acreditar nisso.
Estava numa fase de busca de amizades. Não conseguia mais lidar com o fato de ter tanta gente em volta e poucas delas serem pessoas com quem podia contar de verdade. Passou a valorizar aquele que não aparecia tanto na roda de amigos, mas que era o primeiro a perceber quando alguma coisa não estava bem e tentar ajudar. Notava mais as sutilezas do comportamento dos outros, a fim de saber quem era mais parecido com ele. Pensou, por um instante, que essa felicidade viria daí.
Desde que andava muito ocupado não ouvia música alta, se contentava com o fone no caminho do trabalho ou mesmo com o computador num volume baixo. Com a falta, notou que era uma das coisas que o fazia se sentir vivo. As letras, os riffs, tudo muito alto devolvia aquele brilho no olhar que a cidade tentava apagar. Quem sabe daí viria a felicidade?
Olhava seu caderno cheio de anotações que preferiria que ninguém lesse. Viu ali passagens de sua vida, não fatos, momentos psicológicos. Guinadas de pensamento. Engraçado como qualquer lugar servia pra depositar no papel a confusão que era o seu pensamento. Ler aquilo tudo depois de certo tempo trazia uma nostalgia, saudade mesmo, mas não dor. Talvez fosse a válvula de escape do que não conseguia, ainda, dividir com a humanidade. “Que bom se ser feliz depender só disso”, pensou.
Ali, perdido nesses devaneios, se deu conta que esse “ser feliz” já passou. Lembrava, sim, que tinha milhões de coisas pra fazer, mas aquela brisa passou. Talvez fosse apenas um lapso de esperança na vida, passageira. Afinal, a felicidade é um estado imaginário.

sábado, 9 de abril de 2011

Gente I

Gosto de gente que sabe ser flexível sem perder sua essência. Não ser chato a ponto de se tornar insuportável, nem complacente o suficiente para mudar suas certezas.
Gente que, mesmo tendo a convicção que tem poucos e bons com quem pode compartilhar sua parte mais viva, dividi bons momentos com os demais.
Presto atenção em quem não faz distinção da calçada mais suja ou do mais sofisticado dos lugares, desde que tenha gente legal com um violão.
Me fascina quem consegue surpreender, ir além dos estereótipos que ainda insistem em usar.
Fico feliz em saber que alguém consegue ficar horas ouvindo aquele disco clássico e ter uma sensação diferente a cada vez que o faz. Ou então que, mesmo já tendo um livro muitas vezes, tem a sensibilidade de perceber um significado no qual ainda não tinha pensado.
Penso "pô, que bacana" quando vejo alguém se preocupando em jogar aquele pacote de qualquer coisa no lixo "Que bacana".
Tenho vontade de conversar com anda sempre com um fone de ouvido. Quem (con)vive com a música deve ter algo parecido comigo.
Procuro de ser amigo de quem não tem um milhão de amigos. Alguma coisa me diz que não é possível serem todos de verdade.
Aquela menina quase imperceptível para os outros, é muito perceptível pra mim.
Gente que dá lugar na fila.
Gente que prefere Heineken, mas tá aí pro que vier.
Gente que não abusa no uso de emoticons.
Ganho o dia quando um desconhecido sorri na rua. No geral, eles fingem que nem viram.
Respeito quem tem o dom de não levar tudo à sério. Sabe entender e relevar uma frase torta e não fazer drama com bobagens.
Gosto de quem simplesmente senta... e conversa.
Busco aqueles que alternem altas doses de animação de sábado à noite com suaves porções de melancolia de domingo à tarde.

"Tem que ter um som legal. Tem que ter gente legal. E ter cerveja barata.
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê."
...

domingo, 20 de março de 2011

Vai suportando

Vai suportando.
Fingindo que não se incomoda com os sorrisos amarelos, aqueles que não carregam nada além da obrigação de tentarem ser simpáticos. E tendo que dá-los também, tentando ardentemente passar despercebido para essa gente tão estranha.
Fingindo que não liga para usura que cega alguns, a ponto de esquecerem o mais importante na vida, os sentimentos. Tentando trilhar um caminho paralelo a esse, embora tudo o impulsione a se deixar levar pela correnteza.
Fingindo que o fato de conhecer tão poucas pessoas que pensem como ele, é normal. Mesmo buscando, são poucas, e agora ele começa a entender que sempre vai ser asssim. São os "poucos e bons", os nossos.
Tentando acreditar que os políticos vão melhorar o país, que o povo vai valorizar as músicas com alma, que os preços não estão tão altos assim, que a educação está preparando os alunos pra vida, que o sistema de saúde vigente salva todos que precisam dele, que a pobreza vai ser eliminada...  se enganando para preservar o que de sincero ainda lhe resta.
Assim, vai se adaptando, se moldando, para conviver com os demais. Sem deixar, porém, suas partes vivas se apagarem. Reservando essas pra alguns. 
Vai suportando, mas, uma hora, cansa.

"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.
O caminho mais curto, produto que rende mais.
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.
Um tiro certeiro, modelo que vende mais."

domingo, 6 de março de 2011

A gente esquece um pouco do que somos todo dia

A gente esquece um pouco do que somos todo dia. Detalhes que só se tornam evidentes com o passar do tempo. Novas reações, afetos e desafetos, gostos e desgostos.
Tentar negar isso é inútil. Se privar de viver a mudança é não aproveitar o que vem junto com ela. É irracional se prender a conceitos de si mesmo só porque eles dão segurança. O claro já não é tão claro assim. As certezas se tornam menos consistentes,
E o que tem de bom nisso? Novas experiências. O mundo sempre é mesmo, o que nos deixa ver beleza nele é como o vemos. Quanto mais mudarmos, mais "mundos" diferentes veremos.

"E dentro dessa mesmice,
dessa constante transformação, dessa conclusão que postergo
Eu me olho no espelho e simplesmente não me enxergo. Me perco.
Eu só queria ser eu mesmo novamente. Não é pedir muito... é?" (Toad)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O vento vai dizer lento o que virá

Formatura, capelos ao ar, festa. O que era pra ser o fim se mostra muito mais como um começo. Toda aquela ansiedade que nasceu no início do ensino médio por esse momento perdura, mas agora paira sobre a incerteza do que está por vir. Você é levado a pensar que passa pela escola só para conseguir o conhecimento necessário para ultrapassar a barreira do vestibular, mesmo que isso não seja formalizado, está implantado no modo de levar as aulas de muitos professores. Mas quando essa etapa termina você percebe que não foi só isso, foi muito além de conhecimento acadêmico.

Você fez amigos. Grandes colegas também, mas algumas pessoas vão com você para o resto da sua vida. Aquele que riu com você das coisas mais engraçadas do mundo ou das piadas que ninguém entende, aquele que te trouxe pra realidade quando você sonhava demais ou te fez esquecer dos problemas sonhando com você, aquele que você ajudou ou recebeu ajuda. Uma das coisas que tenho orgulho são as amizades que fiz, essas poucas e boas valerão a pena.

Você viveu experiências. Cada situação te fez mais preparado para o mundo. Aquelas viagens incríveis e aquelas brigas inúteis, cada uma com seu aprendizado.

Você estudou. Ou pelo menos deveria. Também é importante aprender história, matemática, biologia... Grande parte das escolhas que virão a partir de agora irão cobrar de você alguma coisa que você aprendeu nas aulas, inclusive nas mais chatas. Ressalvo a importância da Pastoral Juvenil Marista (PJM) nessa fase da minha vida. As reuniões semanais me fizeram crescer muito enquanto cidadão protagonista na sociedade. A Missão Marista de Solidariedade me mostrou o quanto ajudar é divertido e o quanto se aprende fazendo isso. As missas da juventude mostraram que o jovem também tem fé e quer participar da igreja. Os encontros regionais me permitiram conhecer mais gente que pensa assim e que está disposto a fazer alguma coisa. O Congresso Nacional da PJM celebrou toda a caminhada da pjm e uniu ainda mais os jovens pejoteiros do Brasil. Cada momento, cada pessoas, cada música, enfim, tudo valeu muito a pena. “Porque PJM é o meu lugar...”

E tenho dito, tudo foi importante, nada foi desnecessário. As conquistas agora serão nossa bagagem para buscar nossos sonhos.




domingo, 7 de novembro de 2010

Mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesmo.

Texto de Marina Colasanti

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Descriminalizar?

Sempre fui averso a ideia de descriminalizar o aborto. Pensava que isso seria compactuar com a irresponsabilidade e indiferença com a vida. Mas penso diferente hoje.
Descriminalizar o aborto não significa promover o aborto, mas significa perceber que a via penal não é a melhor forma de tratar a questão. Mulheres e casais com condições econômicas razoáveis não sofrerão riscos à saúde tampouco o julgamento moral da sociedade, uma vez que isto será feito no silêncio do mundo privado. Apenas para constar: um aborto clandestino feito com segurança varia, em média, de R$ 1.500 a R$ 4.000 reais. Segundo dados do Dossiê Aborto de 2005 esta é a 5ª causa de morte materna no Brasil. Ademais, conforme dados do SUS, são cerca de 238 mil curetagens decorrentes de aborto por ano, cada uma ao custo médio de R$ 125,00; ficaram daí excluídos, por exemplo, os custos com internações por período superior a 24 horas, os gastos com UTI e os recursos necessários ao atendimento de seqüelas decorrentes do aborto clandestino. O risco é que a hipocrisia das nossas práticas se sobrepunha à capacidade de analisar o problema com praticidade e bom senso.
Eu não acho que o aborto deva ser utilizado como método contraceptivo – mas não é por isso que ele deve ser proibido. A solução é orientar a população menos informada e menos privilegiada, explicando que pílula anticoncepcional e camisinha (assim como outros métodos menos populares de contracepção) são a melhor solução para o caso. Vai demorar ? Vai. Mas não é negando um direito que você vai conscientizar as pessoas, e só a legalização vai permitir esclarecimento e debate. Não nos esqueçamos: não dá pra fazer uma ampla conscientização de algo que é tabu e proibido. A população deve ser educada a respeito, os aspectos morais devem ser divulgados. Um povo consciente sabe o que fazer, independente de qualquer lei. A criminalização do aborto não evita o aborto, mas tão-somente obriga a mulher a realizá-lo na clandestinidade. As ricas pagando um alto preço pelo sigilo e segurança do procedimento e as pobres relegadas à própria sorte, em um oceano de desinformação e preconceito.
O debate sobre a descriminalização do aborto não é sobre o direito ou não de a gestante abortar, mas sobre o direito ou não de a gestante ter auxílio médico para abortar. A Constituição brasileira garante em seu artigo 226, §7º, que “o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas”.
Os abortos acontecem e acontecerão, com ou sem a criminalização, pois nenhuma lei conseguirá constranger uma mulher a ter um filho contra sua vontade. Não é um fato que agrade à mulher que se submete a ele, ao Estado, ou a quem quer que seja. Mas acontece.
Cabe ao Estado legalizar a prática e evitar os males maiores que são consequências dos abortos realizados sem assistência médica: os danos à saúde ou mesmo a morte da mulher. Talvez esta mudança na lei não faça muita diferença para os homens ou para as mulheres ricas que não sentem na pele as consequências de sua criminalização; mas para as mulheres pobres esta seria a única lei que, de fato, poderia ser chamada de pró-vida.
E Tenho dito. Essa, como muitas outras questões, estão sendo tratadas superficialmente, sem enxergar as verdadeiras razões, para buscar as soluções mais certas. Não sou a favor do aborto, sou a favor da descriminalização dele. Basearmos-nos na hipocrisia não nos levará a lugar algum...
(aberto a ideias, para, quem sabe, mudar de opinião)

sábado, 2 de outubro de 2010

Muito mais que uma bandeira

A expressão desenvolvimento sustentável surgiu no final dos anos 70 e tem seu auge atualmente. Serviu e serve para os mais diversos fins, designando desde crescimento econômico constante e duradouro até empreendimentos que têm algum tipo de preocupação com a questão ambiental.
A idéia seria uma forma de avançar suprindo as necessidades da geração atual, mas sem prejudicar as gerações ainda por vir. Mas "desenvolvimento" significa atualmente pelo menos manter os padrões atuais de crescimento da economia, ou aumentá-los. E como fazer isso sem destruir, sem derrubar mais matas, sem poluir os rios, sem criar novos aterros sanitários e lixões? A sociedade digital em que estamos inseridos propõe criar máquinas cada vez mais sofisticadas e ecológicas que mantenham a escalada do nosso padrão de consumo. Mas como consumir mais se já ultrapassamos em mais de 20% a capacidade de reposição dos sistemas ecológicos? Como crescer para sempre? Crescer para quê? Para quem? São questões importantes.
Consumir é um imperativo dos nossos tempos, se não o consumo desenfreado das elites mundiais, o desejo de comprar impulsionado pelo poder da mídia, que manipula a cultura de maneira cada vez mais eficiente e impõe padrões de consumo insustentáveis. Frei Betto afirmou em uma conferência que a televisão vende os olhos dos espectadores por 15 ou 30 segundos, que têm a ilusão de não pagar nada pelo serviço. Dominados pela TV e pela internet os seres humanos, amedrontados nas suas casas, acreditam que desenvolvimento é ter cada vez mais, sem nenhum limite, viajar pelo espaço, não envelhecer nunca, ter do bom e do melhor, se entorpecer todo o dia. Desenvolver é não ver, deixar de envolver-se com a vida.
Vivendo em ambientes cada vez mais alheios à vida, o ser humano, solitário no mundo virtual, dificilmente compreenderá o complexo processo que fez com que cada item que consome e descarta chegue à sua frente. Ele prefere o conforto de banhos demorados, beber água em copos descartáveis, queimar toneladas de combustível fóssil para se aquecer e se mover. Amparado por uma tecnociência que acredita dominar a natureza, o ser humano se achou protegido e poderoso. Não quer mudar, mesmo sabendo que está minando a si próprio e que a necessidade primordial é viver em paz, ser feliz, sentir e aprender com a vida. Mais do que nunca precisa compreender e viver segundo os ciclos interiores e padrões cada vez mais harmônicos, conectados com os grandes ciclos naturais. Cada vez há mais evidência que desenvolvimento e sustentabilidade não são compatíveis, ou seja, não é desenvolvimento que o ser humano precisa.
Sustentabilidade é um dos princípios dos ecossistemas naturais, e revela-se como um caminho no qual andamos e aprendemos. Não há como pensar a educação do futuro sem incluir a percepção de como os ecossistemas naturais são naturalmente sustentáveis. Segundo Fritjof Capra (2003) "não há lixo no ambiente natural, o lixo de uma espécie é o alimento da outra" e portanto a energia flui através de ciclos que são fechados.
A sustentabilidade pode ser percebida em sua dimensão ecológica que mede a pegada de cada ser humano na Terra, o impacto de cada indivíduo junto às dádivas naturais, cálculo que é feito de diversas formas, nunca de forma muito precisa pela incapacidade que os cientistas têm em lidar com a complexidade das questões ecológicas. Por outro lado, a sustentabilidade também pode ser pensada no aspecto econômico: o que é uma economia sustentável? O trabalho realizado por Paul Singer é notável, buscando incansavelmente a sustentabilidade das relações econômicas, incluindo a solidariedade como valor econômico fundamental. Ele afirma que "para que tivéssemos uma sociedade em que predominasse a igualdade entre todos os seus membros, seria preciso que a economia fosse solidária em vez de competitiva" (Singer, 2002) A economia torna-se sustentável na medida em que se ecologiza, quando avançam os trabalhos de cooperativas e bancos populares, bem como as feiras de troca e grupos de consumo solidários e éticos.
A sustentabilidade pode ser apreendida em múltiplos ângulos. Olhar para a sustentabilidade social é perceber como é a distribuição de renda, bem-estar, afeto, relacionamentos, oportunidades. Pensar a sustentabilidade política é perceber a divisão e participação de toda a sociedade no poder. Sustentabilidade cultural se relaciona com o direito à diversidade cultural, o diálogo que se abre entre as manifestações culturais. O que une todas as visões de sustentabilidade são os valores humanos fundamentais de uma nova percepção ética, a cooperação, a solidariedade, o cuidado, o respeito, a integridade.
Como sustentabilidade é um processo utópico nunca acaba o caminho. E esse caminhar pressupõe muitos aprendizados na vida cotidiana, que possam repensar hábitos poluidores ou comportamentos irresponsáveis e agressivos. A transformação que Gaia implora para a humanidade é de visão de mundo e de ações no planeta. Transformar é viver processos ecopedagógicos.
A vida é uma grande escola e para colocar a educação dentro de um contexto ecológico nasceu a ecopedagogia no fim dos anos 90. Segundo Francisco Gutiérrez (1999):
Somos essencialmente nossa vida cotidiana... e a vida cotidiana é o lugar do sentido e das práticas de aprendizagem produtiva. A ampliação da consciência ambiental - capaz de contribuir para mudar valores e atitudes, acarretando alterações no modelo de desenvolvimento econômico predatório e nas políticas públicas do Brasil - só pode ser gerada como fruto de um amplo processo de transformação sociocultural. No plano nacional, é preciso manter e aprofundar a política nacional de educação ambiental, buscando contribuir para a necessária inflexão sociocultural, que enseje um conjunto de mudanças capazes de levar a um novo paradigma de desenvolvimento. São esses desafios que se impõem ao nosso tempo como compromissos inadiáveis.
Enquanto desenvolvimento sustentável for simplesmente discurso eleitoral ou restrito as camadas mais instruídas, seu conceito não será pleno. Crescer sim, porém sem destruir. E tenho dito.
A propósito, voto Marina Silva, grande defensora legítima da causa, entre outras.

(colaboração Gulherme B. e Patricia A.)


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Aqueles que podemos chamar de 'os nossos'

As pessoas às vezes têm uma falsa ideia de amizade.

Ser amigo não é ficar o tempo todo junto, embora aconteça. A intensidade de um laço independe do número de horas que se compartilha com alguém. Vai bem além disso. Simples minutos podem marcar de verdade, se vividos com sinceridade.

Ser amigo não é ter gostos iguais. O que une não tem que ser interesses em comum, anseios semelhantes. Vejo que a diferença enriquece tanto, a ponto de tornar o diferente instigante, cada vez mais interessante. É absolutamente normal pessoas com propostas de vidas diferentes, com estilos musicais distintos, atividades diferentes, se tornarem próximas. É bom, inclusive.

Ser amigo não é se abster de opinião para não ofender. Por mais difícil que seja, queremos (ou deveríamos) conviver com aqueles que abram nossos olhos, que saibam apoiar sem esconder o erro. Muitos procuram um cúmplice, aquele que vai sempre dizer sim, que não o ajuda a evoluir. Não quero isso, quero além.

Tão peculiar o modo como nos relacionamos com ‘os nossos’. Tem aquele que logo pensamos quando o assunto é festa, o mais animado, antenado, hedonista. Já aquele outro nos vem quando pensamos no vestibular ou escola, o aplicado, consciente da importância do agora. Ainda aquele informado sobre música, enfim. Quero dizer que não adianta ter um modelo pré-moldado a esse respeito. Com cada amigo, os lugares, atividades, papos serão diferentes. E é saudável que seja assim. E são poucos. Aqueles que poderemos contar realmente, aqueles que podemos chamar de ‘os nossos’. Mas assim deve ser.

E tenho dito. Amizade vai além do que parece óbvio, do que pensamos ser convencional. Não adianta ter todas as afinidades do mundo se as almas não são compatíveis, bem como não há diferenças capazes de afastar duas pessoas ligadas por esse elo.

“E Ela sabia que era fogueira demais pra se deixar virar fagulha. Decidiu abdicar da calma. Passou a buscar os seus iguais, e lentamente ao longo da estrada os foi encontrando, um a um. Nesse momento não eram muitos, mas eram os dEla. Aqueles ali a entendiam e partilhavam das mesmas convicções, viviam de forma parecida. Depois descobriu que nunca seriam tantos, não era pra ser assim. Existia a maioria, e existiam eles. Enfim, um pouco de paz. Continuou convivendo com aqueles humanos tão estranhos, mas reservou para si e para os seus as suas partes mais vivas porque necessitava ser compreendida. Fechou-se para a pequenez dos demais e assim conseguiu, de vez em quando, ser feliz.” @pittyleone

(Valeu amigos!)


c

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Voluntariado: jovens transformando realidades

O idealismo está sim presente na vida do jovem hoje, tão forte quanto era na década de 60, por exemplo. Mas o modo de atuar na sociedade mudou, temos o voluntariado. Nessa onda de indignação com o cenário político, o trabalho voluntário é o caminho para transformar nossa realidade na prática. Vemos o resultado. A atuação da juventude nesse ramo subiu de 7% para 34% e cerca de 14 milhões se interessam, mas não sabem como começar.
A incapacidade do Estado de suprir as necessidades básicas de seus cidadãos, principalmente dos menos favorecidos, levou a iniciativa privada a assumir tarefas que antes eram consideradas exclusivas do Estado, o que se chamou de Terceiro Setor.
Cada um tem suas motivações para começar, mas vejo três como fundamentais e sempre presentes:
- A busca de atividades diferenciadas para o tempo livre. A rotina não é muito agradável, mas aliando trabalhos voluntários, fica mais fácil levar (além do bem realizado, claro)
- A vontade de ajudar. Ver tudo acontecer sem poder fazer nada é frustrante, então é um modo de saciar o anseio de colaborar para resolver (reduzir, vai) as desigualdades e problemas do Brasil.
- A satisfação pessoal. Saber que é útil, que sua colaboração é fundamental e valorizada.
São muitas as possibilidades de atuação. Se a luta pela preservação da natureza e práticas sustentáveis é sua maior bandeira, é natural a busca por projetos com esse objetivo, assim como auxílio a crianças carentes, ajuda na educação... Enfim, são tantos ramos, basta escolher e se engajar!

Mas eis algumas dicas:
- Prefira instituições próximas de sua casa (mais fácil, não concorda?)
- Esperar que as pessoas vibrem com seu trabalho não é bom. Seja tolerante a críticas e saiba que fazer sem esperar recompensas (desse tipo) talvez seja a melhor forma de fazer
- Leve a sério. Não é por ser voluntário que não é sério. Pelo contrário. Tenha a mesma seriedade que teria em um emprego.
- Saiba escolher para não cair em ciladas. Se informe. Como é administrada? É legal? Pode ser só fachada...

Segue alguns links que podem ajudar
http://www.voluntarios.com.br/
http://www.ikoporan.org/
http://portaldovoluntario.org.br/

Trabalho voluntário é realmente gratificante. Aprende-se muito mais do que se ajuda. E tenho dito. Espero ter o estimulado a ser mais um que usa toda sua vitalidade em prol de ações nobres. Faz diferença, acredite!

sábado, 14 de agosto de 2010

...mas ninguém nunca vai poder dizer que não tivemos coragem de agir

Reclamar. Estamos tão acostumados a reclamar, que a ação está em segundo plano. A usura em que vivemos é questionada por todo mundo, a falta de empregos, a corrupção, saúde precária, tudo. Mas eis a questão: A sociedade em geral foi “moldada” para aceitar fielmente o que lhe é imposto, e quando não concorda, não sabe (ou quer) fazer algo que ajude de verdade. “Cidadania é um exercício ativo. Não é só receber as coisas: é intervir na sociedade, é participar”, diz Inácio da Silva, pesquisador e educador da Escola de Cidadania do Pólis – Instituto de Estudos. Afinal, se abstendo ou não, alguém vai subir lá e escrever as leis que NÓS teremos que obedecer. Então, que seja um dos nossos.
Alguns espaços onde você pode atuar:

Associação de bairro: Onde moradores se juntam em busca da melhoria da qualidade de vida de sua comunidade. É um espaço privilegiado para conquista de mudanças absolutamente visíveis e concretas. De uma olhada no site da Confederação Nacional das Associações de Moradores: http://www.conam.org.br/

Fóruns: Reunião de movimentos, entidades e organizações que debatem idéia para melhoria de algum tema. O mais conhecido é o Fórum Social Mundial: www.forumsocialmundial.org.br

Conselhos gestores de políticas públicas: São espaços em que a sociedade participa da elaboração e da gestão de políticas públicas junto a governos municipais, estaduais e federais. Consulte o site de sua prefeitura para se informar mais. Um bom exemplo é o Conselho Municipal de Juventude, em busca de avanço nas políticas públicas para o jovem.

Movimentos sociais: Reúnem pessoas e entidades em torno da luta por bandeiras mais amplas: feministas, operários, indígenas, estudantes etc. São mais conhecidos por promover passeatas, atos públicos e ocupações.

Organizações não-governamentais (ONGs): Entidades sem fins lucrativos, que normalmente atuam na defesa de direitos em várias áreas. Consulte o site da Associação Brasileira das ONGs e saiba como começar a agir por meio delas: www.abong.org.br.

E tenho dito, é fundamental questionar e militar para mudar o que está acontecendo de errado. Gente ignorante e sem capacidade (diria vontade) de se movimentar é tudo que os corruptos querem. É uma tarefa longa, que envolve mudança de mentalidade e cooperação mútua, mas ninguém nunca vai poder dizer que não tivemos coragem.