sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ao som de um velho rock.

Quando a vontade de conhecer os cantos mais escuros, as pessoas mais hedonistas, os sabores mais exóticos crescerem na mesma proporção que a lua.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando os sentidos já estiverem sendo enganados pelo efeito de um vinho barato e o trapézio já não for mais capaz de te dar equilíbrio.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando o que se sente e pensa não conseguir acompanhar o que se vive, por se sentir ou pensar muito alto ou por viver muito baixo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Na noite mais fria, no dia mais quente, na madrugada mais perturbadora.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Se o mais velho amigo te abandonar ou o amor platônico se declarar.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando a agulha da vitrola quebrar ou bateria do iPod acabar. Quando for preciso cantar desafinado para passar o tempo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando a fome de novidade ficar tão forte a ponto de te fazer esquecer da rotina e fazer coisas que nunca imaginou fazer.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Se, algum dia, quiser alguém para falar importantes coisas inúteis, para ouvir aquele novo disco do passado ou debochar dos problemas do mundo.
                       Vem comigo ao som de um velho rock

Na véspera de uma viagem, num dia de liberdade, na pior sarjeta da cidade. No céu diário ou no caos do noticiário.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

No dia que a solidariedade for crime, a tolerância não existir e isso incomodar você.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

Quando estiver alegre, triste, cansada, no melhor estilo sex, drugs and rock n' roll, caseira, boêmia. Se o riso ou a lágrima escorrerem fácil.
                       Vem comigo ao som de um velho rock.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Gostava de olhar o mundo

Contava os dias para a liberdade. Mesmo sem saber se já estaria livre, mesmo sem sequer saber o que seria ela. Toda noite, naquele momento em que não se está nem dormindo nem acordado, pensava se as coisas não iam bem realmente. Talvez fosse frágil demais, talvez esperasse demais de tudo.
Essa contagem não era baseada no tempo convencional - aliás, nada na vida dele era convencional - de dias e horas. Era muito mais marcada pelo que sentia e pensava, de modo que um ano poderia caber em um dia ou uma hora se estender por uma longa semana. Como lidar com um presente que não acompanhou a prosperidade dos tempos de outrora?
Gostava de olhar o mundo. A rotina de sentar no café da esquina, pedir um expresso e ficar observando aquelas pessoas já havia virado uma espécie de ritual. Todos pareciam se afogar em problemas, ligações, na pressa. Ali pensava em todas as angústias que as coisas por fazer o faziam esquecer. Tinha que pensar nelas, mastigá-las, saboreá-las. Podia parecer masoquista, mas de outra forma não conseguiria se libertar. Era preciso para poder cuspí-las depois. Fingir que as amarguras não existiam era permitir que elas fossem se acumulando, aos poucos. Queria se livrar das coisas que não lhe fazia bem, e não seria fingindo que não existiam que conseguiria.
Foi nesse café que conheceu quem viria a ser o seu maior alicerce. Uma mulher que estava sempre ali, sempre só, sempre com um livro velho proveniente de algum sebo empoeirado. Mantinham uma relação invisível, contato visual. Sabe quando você olha pra alguém e percebe que ela também está te olhando? Pois é. Foi assim por semanas.
Num dia mais frio que o habitual, em que o café se mostrava um lugar bem mais atraente, ele sentou do lado dela. Simplesmente, sem nem entender o motivo. Toda sua vida foi movido por uma timidez que não permitia ações muito espontâneas e rápidas. Tudo sempre foi muito pensado antes de fazer, até aquele dia. Acho que alguma coisa o fez acreditar que teriam mais coisas em comum do que com o resto da humanidade. Foi estranho, até as reservas que ambos haviam criado no passado caírem. A partir dali foram mais inúmeros cafés, dezenas de discos ouvidos, alguns filmes, alguns livros trocados...
Agora os dois teriam com quem contar. Não sabiam ainda, mas teriam alguém para falar besteira num sábado entediado, desabafar quando o mundo estivesse um porre ou brigar (com a certeza que no outro dia tudo já estaria bem).
Sim, eles se amavam. E sim, eram "só" amigos. Que acho, inclusive, que é o maior laço que podemos criar com outra pessoa, livre das obrigações chatas dos outros tipos de relacionamento. Eram amigos, os maiores e melhores que o mundo já viu e verá.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quando não existe o errado

Você não pode dizer qual o melhor jeito de passar esse tempo entre o nascimento e a morte, ninguém pode. A única coisa que você pode fazer é escolher um caminho, um modo de vida, uma ideologia, e seguir convicto. O tempo responde as incertezas, as inseguranças. Tenho uma leve suspeita sobre o que ele vai responder, quando os anos já tiverem em número suficiente. Ele vai sussurrar no seu ouvido "não existe estrada errada, existe incredulidade na que escolheu". E isso o calor de estar no olho do furacão não deixa a gente enxergar.
As noites meio bêbadas viradas com uns poucos e bons, os livros lidos várias vezes e reinterpretados tantas outras e as músicas que se tornam hinos de momentos que passamos não permitem que ninguém questione a validade dos equívocos cometidos. Saber lidar com o inferno e céu de todos os dias não faz com que eles sejam só céu, mas evita que sejam só inferno.
Ela vive o agora. Leva o hedonismo às últimas consequências e não faz planos que envolvam mais tempo que uma semana. Vai em todos os lugares e não tem preconceitos em conhecer todo tipo de gente. Come demais, bebe excessivamente. Não dorme nada ou dorme muito. Vai tanto em show internacionais como fica batendo papo na esquina.
Ele colocou o futuro dentro de um cofre e protege ele arduamente. Fica em casa quando sabe que tem prova no outro dia. Acorda cedo e caminha pra se manter saudável. Reserva seu dinheiro para imprevistos futuros. Não lembra do passado, vive o presente pra ter algum futuro. Pergunta o que é Carpe Diem.
Quem está certo? Ou melhor, tem alguém errado? Acho que não.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Rascunho

Mundo de super heróis. Todos tentam ser mais bonitos, descolados, inteligentes, deixando a estupidez escorrer dos olhos. Desculpa, mas eu olho pras pessoas e não consigo enxergar nada além de maquiagem. É como se bastasse se render a ditadura do “cool”. Deixar-se ser aquilo que de verdade acredita é honrar a capacidade de pensar e formar suas próprias concepções de mundo. Todo mundo gosta de quem tem suas certezas, até o ponto em que elas divergem das suas. Mas isso é importante, confrontar ideias diferentes deixa mais bonita a relação com os outros, mais instigante.
Falta parar de ceder às conveniências, parar de seguir o senso-comum. Com esse poder de pensar e ter uma visão própria, não entendo o motivo de se deixar levar. Não vou ceder a essa balela midiática que luta para padronizar as ideias e tornar a vida uma simples repetição de conceitos e atitudes atrasadas.
Não acreditem em tudo que vêem por aí, cegamente. Nada é eternamente verdade, exceto se for a SUA verdade. Essa vale à pena, e é por ela que eu luto.
Vão poder dizer tudo. Que fomos loucos, que não gostaram do nosso jeito, das nossas escolhas. Uma coisa não vão poder dizer: que não tivemos coragem de ter o NOSSO jeito, as NOSSAS escolhas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ele é o paradoxo

Não ter a certeza de como sua vida estará daqui a algum tempo é o que o assombra. Tenta pulverizar esse peso em outras preocupações. Menores, mas que desfocam o mal maior. Aquela prova que precisa tirar nota alta serve para esse propósito, ou aquela garota que anda o ignorando. Qualquer coisa que ocupe o espaço que a dúvida habita.
Estuda pouco, ou nem estuda, mesmo sabendo que grande parte dos seus planos dependiam disso. Não procura emprego, mesmo sabendo que o dinheiro seria útil quande tivesse que trilhar seu caminho. É como se ele procurasse motivos para fomentar seus medos. Joga lenha na fogueira, apesar de querer mesmo é apagar o fogo.
Sempre fora cercado por essas contradições, desde sempre. Na infância, suas relações com seus amigos eram de amor e ódio, amizade e repúdio. Era uma maneira de camuflar o que sentia. Instintivamente, escondia seu âmago com atitudes contrárias. Tinha medo.
Tem pessoas que deixam um legado para o mundo. Não digo grandes invenções ou descobertas, digo detalhes que os seus mais próximos levarão consigo. Lembranças, memórias."Eu? acho que só restará de mim uma dúvida. Que perdurará após a minha morte. Vivi buscando aquilo que não queria ou procurei aquilo que queria mas não tinha coragem de admitir?"
Mas ainda está vivo. E segue. Segue com aquele espírito ideológico que se recusa a parar de tentar entender esse vácuo entre o que sente e o que faz. Apesar de tudo, sente orgulho de ser como é. Tanta gente que ostenta hipocrisia com uma ferocidade tamanha. Não é assim, então se reserva o direito de se gostar, um pouquinho que seja. Não faz mal a ninguém, embora faça a si mesmo algumas vezes.
Busca, corre, para, pensa, chora. Busca de novo. Chora de novo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Estado imaginário

Sentiu-se estranhamente feliz, sem saber muito bem o motivo. Precisava saber, só assim conseguiria repetir esse momento. Na verdade, nem acreditava muito nessa história de felicidade. “É um estado imaginário” costuma repetir, ao som do Barão Vermelho. Achava que conseguiria alcançá-lo independente do que estivesse à sua volta, preferia acreditar nisso.
Estava numa fase de busca de amizades. Não conseguia mais lidar com o fato de ter tanta gente em volta e poucas delas serem pessoas com quem podia contar de verdade. Passou a valorizar aquele que não aparecia tanto na roda de amigos, mas que era o primeiro a perceber quando alguma coisa não estava bem e tentar ajudar. Notava mais as sutilezas do comportamento dos outros, a fim de saber quem era mais parecido com ele. Pensou, por um instante, que essa felicidade viria daí.
Desde que andava muito ocupado não ouvia música alta, se contentava com o fone no caminho do trabalho ou mesmo com o computador num volume baixo. Com a falta, notou que era uma das coisas que o fazia se sentir vivo. As letras, os riffs, tudo muito alto devolvia aquele brilho no olhar que a cidade tentava apagar. Quem sabe daí viria a felicidade?
Olhava seu caderno cheio de anotações que preferiria que ninguém lesse. Viu ali passagens de sua vida, não fatos, momentos psicológicos. Guinadas de pensamento. Engraçado como qualquer lugar servia pra depositar no papel a confusão que era o seu pensamento. Ler aquilo tudo depois de certo tempo trazia uma nostalgia, saudade mesmo, mas não dor. Talvez fosse a válvula de escape do que não conseguia, ainda, dividir com a humanidade. “Que bom se ser feliz depender só disso”, pensou.
Ali, perdido nesses devaneios, se deu conta que esse “ser feliz” já passou. Lembrava, sim, que tinha milhões de coisas pra fazer, mas aquela brisa passou. Talvez fosse apenas um lapso de esperança na vida, passageira. Afinal, a felicidade é um estado imaginário.

sábado, 9 de abril de 2011

Gente I

Gosto de gente que sabe ser flexível sem perder sua essência. Não ser chato a ponto de se tornar insuportável, nem complacente o suficiente para mudar suas certezas.
Gente que, mesmo tendo a convicção que tem poucos e bons com quem pode compartilhar sua parte mais viva, dividi bons momentos com os demais.
Presto atenção em quem não faz distinção da calçada mais suja ou do mais sofisticado dos lugares, desde que tenha gente legal com um violão.
Me fascina quem consegue surpreender, ir além dos estereótipos que ainda insistem em usar.
Fico feliz em saber que alguém consegue ficar horas ouvindo aquele disco clássico e ter uma sensação diferente a cada vez que o faz. Ou então que, mesmo já tendo um livro muitas vezes, tem a sensibilidade de perceber um significado no qual ainda não tinha pensado.
Penso "pô, que bacana" quando vejo alguém se preocupando em jogar aquele pacote de qualquer coisa no lixo "Que bacana".
Tenho vontade de conversar com anda sempre com um fone de ouvido. Quem (con)vive com a música deve ter algo parecido comigo.
Procuro de ser amigo de quem não tem um milhão de amigos. Alguma coisa me diz que não é possível serem todos de verdade.
Aquela menina quase imperceptível para os outros, é muito perceptível pra mim.
Gente que dá lugar na fila.
Gente que prefere Heineken, mas tá aí pro que vier.
Gente que não abusa no uso de emoticons.
Ganho o dia quando um desconhecido sorri na rua. No geral, eles fingem que nem viram.
Respeito quem tem o dom de não levar tudo à sério. Sabe entender e relevar uma frase torta e não fazer drama com bobagens.
Gosto de quem simplesmente senta... e conversa.
Busco aqueles que alternem altas doses de animação de sábado à noite com suaves porções de melancolia de domingo à tarde.

"Tem que ter um som legal. Tem que ter gente legal. E ter cerveja barata.
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê."
...